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30.3.08

Eu prefiro musica cabeça

Como todas as formas de arte, a música, especificamente o Rock, deixou há muito de ser regido pelo senso de invenção. O apocalipse começou em meados de 77 e levou o singelo nome de Punk Rock. Foi o retorno às velhas bases, a exaustão do estilo, não havia mais pra onde ir. Depois de alçarmos às estrelas e dimensões paralelas a bordo dos sintetizadores progressivos, a grande tendência, o sinal dos tempos agora limitava-se a pura expressão das angustias juvenis, onde a raiva suplantava e saciava qualquer necessidade de técnica. Era o Punk.

Mas o Punk que nascera anárquico, cometeu a ousadia de se estipular padrões. E como a anarquia lhe era intrínseca, esses padrões não custaram a ser quebrados. Logo a atmosfera punk, encharcada de uma permissividade maior do que qualquer hippie jamais sonhou, começou a avançar sobre outros estilos, e outras épocas. E lá estavam o Clash e os Specials colocando os punks pra dançar reggae; os Stray Cats resgatando o espírito Rocakbilly; o The Jam se apoiando nos Mods dos anos 60, e por fim, a maior das piadas: o sintetizador, o pavoroso sintetizador dos Progressivos, também fora cooptado e assim deu frutos. Era a New Wave.

Aí veio o pós-punk, urgente como o punk inglês, e indiferente como o punk americano. Foi o fim da festa. Os dias de CBGB’s, Blondie e Ramones haviam passado. Foi o alvorecer dos Yuppies, de Reagan, da Guerra Fria e da Aids. Era uma época fria, de poucos sorrisos. Mesmo na pista de dança do New Order, o tom era melancólico, mas ainda inventivo. O próprio New Order se reinventara após deixar de ser o Joy Division. O rock inglês como todo um teve que se reinventar após a sanha dos primeiros punks. Na Inglaterra, os Smiths inventavam o que o REM e o Sonic Youth colocariam nome anos depois: o Rock Alternativo.

E foi assim que acabou um período de criação que começou quando Allein Ginsberg e Jack Kerouac saiam da literatura para abrir o portal onde o Rock se jogou para a nova era, nos anos 60. No início dos anos 90 a melodia havia acabado. O aparente desleixo do Velvet Underground com as peças assobiáveis fora levado ao pé da letra, e a ultima década do século começava com batidas e coreografias hollywoodianas. O rock de verdade, não as palhaçadas onde o Metal patinava, estava derrotado, morto. Daí não lhe restou fazer o caminho de volta, se não havia saída para frente, teria para trás. Enquanto na Inglaterra o pessoal unia o legado dançante da última década com sons da era psicodélica, o Nirvana fazia um mix de Pixies e Sonic Youth que desbancou o Rei do Pop das paradas. Depois veio Oasis com seu rock de macho temperado com açúcar sessentista, e por fim os Strokes deram o ponta-pé ao revival dos anos 80 que só parece recrudescer.

Hoje praticamente não existem mais tendências originais, como foi a onda rave no fim dos anos 90. Quando muito existem bandas originais, que se arriscam sozinhas, e despontam para além do momento e para a história. Muitos medalhões cedem às modinhas, outros permanecem a parte em seus mundos, indiferentes aos rios de dinheiro que correm e que não são nada perenes. É o caso do Radiohead e do Portishead, que não por acaso tem “cabeça” em seus nomes, o que por si só já significa muita coisa.

LUÍS VENCESLAU - 11:49 AM

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2.11.07

Eis o Futuro, os novos paradigmas e o diabo a quatro

Definitivamente, parece que o Futuro chegou. Pelo menos na música, acho já que podemos dizer isso. Primeiro foi o Oasis, que lançou o clipe do seu novo single no YouTube, para só depois lança-lo nos meios mais convencionais. Na semana seguinte, foi o Radiohead que radicalizou. A banda, sem gravadora, colocou seu disco à venda num site em que o internauta pagaria o que achasse justo pelo disco. Como se não bastasse, quem não quisesse pagar nada (zero libras) também poderia baixar o disco, normalzinho, totalmente for free.

Todo mundo se espantou, fãs, imprensa... Afinal: que diabos de estratégia é esta? Tudo bem que o Radiohead já é uma banda consagrada, pode se dar a este luxo de fazer essas extravagâncias. Mas porquê abrir mão de ganhar mais algum, quando teria tanta gente disposta a pagar e caro? Ao que parece, a questão não é quem paga, mas quem recebe, e é fato que há muito tempo os artistas tem ganhado uma parcela ínfima da vendagem dos discos. Os discos servem mais como divulgação, como os clipes, mais para fazer o pessoal ir aos shows, que é o que realmente lhes dá algum lucro.

No âmbito local (mas local mesmo) a moda já pegou faz tempo. Grande parte das bandas de forró não gravam mais discos convencionalmente. Gravam sim um show, o que é bem mais barato e rápido de se arranjar, fazem um cd, e contam com os piratas para disseminar o negócio. Obviamente a venda desses cds não vai lhes render nada, mas a quantidade de discos vendidos, o grau de penetração e repetição, garante platéias pra lá de robustas nos shows. Eles agradecem.

Esta prática na grande indústria, num nível global, trouxe a questão a público e desvelou a realidade por trás da venda dos discos. As gravadoras não devem ter gostado nada disso, ainda mais nesses tempos de downloads correndo para todos os lados e a pirataria campeando, livre, leve e solta. Mas como já dizia um professor de história, "toda transição é dolorosa". Vamos ver quem resiste mais.

LUÍS VENCESLAU - 1:54 AM

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8.7.07

O FESTIVAL AUMENTA QUE É ROCK realiza no começo do segundo semestre a sua segunda edição se consolidando como o maior evento de rock´n roll da Paraíba. O festival acontece nos dias 03 e 04 de agosto novamente no Galpão 14 e este ano traz mais de 20 atrações de todos os cantos do país. A idéia é unir a riqueza arquitetônica do Centro Histórico de João Pessoa e o aniversário da cidade (05 de agosto) para contemplar o público com shows de grandes nomes do rock independente nacional, além de apresentar as novidades sonoras produzidas por
aqui.

O evento é a principal vitrine para o cenário de música independente do estado e já está inserido no rico calendário de festivais do gênero do país. Na primeira edição, realizada em 2006, cerca de 1000 pessoas circularam diariamente pelo Galpão 14, prestigiando as 18 atrações que passaram pelo palco do local.

Este ano o Festival Aumenta que é Rock avança fronteiras e traz uma atração internacional, a banda australiana The Nation Blue. Tambem já estão confirmados no evento nomes conhecidos do público pessoense como a consagrada banda carioca Matanza e os conterrâneos do Jason, o rock setentista do power trio goiano Rockfellers, o arsenal sonoro da vizinha pernambucana Astronautas, além do repatriamento da “filha da terra” Zefirina Bomba, que cada vez alça vôos maiores na cena brasileira. A marcante presença de outros estados nordestinos é realçada ainda pelo inédito show do bom e velho rock´n roll dos baianos do Cascadura e do retorno dos avassaladores The Honkers, além da cearense Monophone também estreante em terras paraibanas.

A divulgação das bandas locais que partciparão do Festival Aumenta que é Rock 2007 acontecerá no dia 03 de julho, faltando exatamente um mês para o evento. A seleção das atrações locais mais uma vez foi dividida entre bandas inscritas e bandas convidadas.

Buscando integrar manifestações artísticas o conceito multimídia do festival, vai proporcionar também lançamentos de CDs, produção de videoclipes e DVD, brechó do rock, além do fértil intercâmbio de idéias entre artistas, jornalistas e produtores culturais locais e de outros estados.

A festa de lançamento oficial do festival acontece na sexta-feira 13 de julho, quando está prometida uma super festa para celebrar o dia mundial do rock com presença confirmada de uma revelação potiguar ,The Sinks mais quatro atrações locais. Ainda estão previstas prévias do Festival Aumenta que é Rock na segunda metade do mês de julho.

PROGRAMAÇÃO (OBS: O terceiro dia foi anunciado apenas posteriormente)

Sexta (03)

Elmo
Vôti!
Rockfellers (GO)
Scary Monsters
Zefirina Bomba
The Honkers (BA)
Jason (RJ)
The Nation Blue (Austrália)

Sábado (04)

Abortion Chamber
La Clave Encarnada
Pluma
Monophone (CE)
Molestrike
Astronautas (PE)
Motherhell
Cascadura (BA)
Matanza (RJ)

Domingo (05)

Gauche
Retaliação
Enne (MG)
Lucy and the Popsonics (DF)
River Raid (PE)
Os Reis da Cocada Preta
Rock Rocket (SP)

LUÍS VENCESLAU - 12:09 PM

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9.6.07

De como se fazem os mitos

No início deste mês, o mundo comemorou (pelo menos nos cadernos de cultura), os 40 anos de "Sargent Pepper's Lonely Hearts Club Band", o disco dos Beatles que é tido como um dos marcos da música do século XX. Não irei aqui me alongar sobre o que torna este disco tão especial, basta dizer que a partir dele o Rock deixou de ser visto como uma mera manifestação juvenil: o Rock também poderia uma fonte de Arte.

Hoje, não só este disco, mas toda a obra dos Beatles, é reverenciada em todas as partes do mundo, por todo tipo de gente. Maestro ou analfabeto, sueco ou alagoano, há beatlemaníacos em toda as castas imagináveis. Muito desse respeito à obra dos Beatles se dá por um fator muito simples: eles não tiveram decadência. Antes de afundarem nos próprios clichês, antes de virarem relíquias do passado, antes de virarem um bando de velhinhos tocando para velhinhos, ou pior, tentando soar novos no meio da garotada, os Beatles decidiram colocar um ponto final numa carreira que só conheceu o êxito.

Do ponto de vista artístico, uma decisão desse porte não é algo tão simples quanto parece. É preciso além de um grande bom-senso, uma visão crítica da própria obra, uma consciência clara dos rumos e dos objetivos que ainda podem ser buscados, o que ainda dá para fazer, e finalmente, senso histórico. Às vezes um disco ruim (ou um livro, ou filme) pode arruinar um legado que levou anos pra ser construído, e pode-se ganhar mais não o colocando em jogo em prol de uma longevidade. É o caso dos Beatles. Sua obra está lá, estática, sem fases ruins, é sempre ascendente. Eles não sujaram a própria imagem, não chegaram a se "queimar". As duas ou três gerações seguintes não lhes conheceu como artistas claudicantes, vivendo de revivals, sem virilidade, sem pujança. Goste dos discos ou não, ninguém pode dizer "ah, a partir deste aqui eles começaram a degringolar'.

É o que acontece com gente como Roberto Carlos, David Bowie, e tantos outros. Tiveram seu auge (algo que Odair José delimita em sete anos, para qualquer artista) e depois perderam a relevância. Hoje são mais alvos de descrédito e preconceito do que de qualquer outra coisa. E porquê? Porque as gerações mais jovens, as que conheceram seus trabalhos recentes, viram apenas o "crepúsculo desses deuses", o "descanso dos guerreiros". Não importa se houve momentos criativos lá atrás, o problema é que desde então eles se arrastam em carreiras com mínimos lampejos de qualidade, o que só afugenta possíveis espectadores.

Pode ter partido daí a decisão dos Los Hermanos de entrarem em "recesso por tempo indeterminado", nas próprias palavras deles. Segundo a banda, não houve nada negativo que motivasse isso, eles simplesmente pararam para dar uma respirada, para viver um pouco como qualquer ser humano no mundo (coisa que não existe no showbizz). Para alguns fãs, a banda acabou de vez. O certo é que, se eles chegaram à conclusão de que não vão produzir mais nada interessante (juntos), então esta parada tem que se apoiada. Eu não gostaria de que daqui a alguns anos um garoto visse os Los Hermanos forçando a barra num programa de domingo e me perguntasse: "como vocês ouviam isso?". Não ia adiantar explicar que no início daquele século, eles tinham sido a maior banda do Brasil. Contra fatos - visíveis - não haveria argumentos.

LUÍS VENCESLAU - 4:31 AM

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26.4.07

Anacronismo crônico

Tá todo mundo falando dela, então vou falar também: Amy Winehouse. Seguramente, já é um dos nomes mais badalados de 2007. Todo furor que essa inglesa de 23 anos tem causado não é pelo seu dom pra armar barraco (fleuma inglesa? Forget it...), mas sim por simplesmente cantar como uma bela negona de responsa. Tudo bem que ela não é nenhuma branquela, é morena, mas ainda assim é de se causar espanto.

No seu novo disco, "Back to Black", sua grande influência é o Soul. Cansada da complexidade do Jazz, explorada no seu disco de estréia, Amy se jogou de cabeça no ritmo de Ray Charles pra nos brindar com pouco mais de meia hora de pérolas pop. Pop? Ray Charles? Não, não tem nada errado em juntar essas coisas no mesmo parágrafo. É perfeitamente possível ter boas influências e apelo pop, sem cair no óbvio das paradas. E isso a Amy consegue.

Mas para mim, o grande quê da moça não é nem esse. O fato é que ela bebe da fonte dos grandes artistas do soul dos anos 60 sem necessariamente querer ser um deles. Ela se inspira neles, mas mantém seus pés bem ficados no século 21, o que lhe confere a possibilidade de também se valer do hip-hop e do reggae em seu disco. Ela sabe que mesmo que tentasse, ela jamais representaria o que Aretha Franklin ou as Supremes representaram. É algo que está além do timbre negróide.

Muita gente insiste em não entender isso hoje em dia. Como resposta ao New Metal, tem surgido uma leva de bandas cujos heróis são os ídolos da Jovem Guarda e tudo que é sessentista: Beatles, Mods, etc. Se fizessem como a Amy, tudo bem, se basear em elementos, se influenciar, é algo natural. Mas essa galerinha quer ser o que já não dá mais, querem soar como se estivessem em 1965. O que eles parecem não se dar conta é que o mundo já está bem diferente. Não adianta colocar terninhos e fazer letras sobre garotas que não é só por aí. Os equipamentos mudaram, as técnicas, o público é outro, as expectativas são outras, as aspirações, as drogas são mais potentes, tudo mudou. Mesmo que desse, não teria como serem compreendidos como uma banda sessentista se nesses 40 anos surgiram inúmeras bandas, de vários estilos e formas de tocar. Bandas que fundaram tradições, serviram de influências pra muita gente ao longo do tempo, e formam uma bagagem coletiva da qual o rock sessentista é só uma parte.

Bom, quem sabe um dia eles entendem o que a Amy sempre soube.
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Eu adorei o disco dela, mas quem pode falar bem mais e melhor sobre ele é o Arthur Dapieve
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LUÍS VENCESLAU - 2:40 AM

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29.12.06

A verdade (?) sobre o Brega

Motivo de debates acalorados e de críticas mordazes, o estilo "Brega" é inegavelmente algo arraigado à cultura e ao imaginário brasileiro, tanto quanto o samba e o forró. Mas na verdade, o que é o Brega? O contrário de "chique"? E o que seria "chique"? A "MPB clássica"? Bom, quando houve o estouro do estilo na década de 70, muita coisa que não tinha nada a ver com a história acabou sendo rotulada como Brega apenas por conter algumas poucas afinidades com o que era de fato. Outra razão disto é o bom e velho preconceito, que empurra tudo o que é diferente lá pro fim da fila. E naquela época, ser "in" era bater na ditadura, agradar o pessoal das universidades, dos partidos e dos cineclubes. Se era do povão alienado, os "antenados" torciam o nariz. Era lixo, era Brega.

Pois bem, para fins didáticos, vamos dividir o cenário dos anos 70 em quatro vertentes básicas. São elas:

1) Neo-jovem-guardistas: Os legítimos bregas. No fim dos anos 60, a Jovem Guarda começou a dar sinais de cansaço. Nisso, uns partiram para outra coisa, como Roberto Carlos, Ronnie Von e Os Incríveis. Mas outros, não. Continuaram fieis ao estilo e a sonoridade, e naturalmente, o êxito dos artistas predecessores inspirou muitos exageros. O que surgiu foi uma espécie de Rococó da Jovem Guarda, onde as temáticas amorosas foram levadas ao paroxismo. Nessa onda de exagerar, quase tudo era tratado em termos trágicos, extremos, o que em muitos casos acabava caindo no cômico. A referência dos compositores e cantores não era mais o Rock internacional da época, mas sim os grandes cantores dos anos 40 e 50, já considerados arcaicos durante os anos 60. Houve uma retomada daquela forma de cantar, mas com uma roupagem de som cunhada pela Jovem Guarda. Exemplos disto são Evaldo Braga, Baltazar e José Ribeiro.

2) Românticos de ocasião: Não tinham nada a ver com a Jovem Guarda. Surgiram incentivados pelo sucesso da nova fase do Roberto Carlos, a "fase adulta", mas sem que quisessem ser ele. Eram cantores que procuravam se expressar à sua maneira, que tinham muita personalidade e buscavam desenvolver um tipo característico de som. Suas letras não tinham nenhum laivo de humor. Tratavam de temas mais complexos, eram bem mais reflexivos, apesar de falarem de amor e relacionamentos. Diferente do pessoal do grupo acima, o modo que eles viam as situações nada tinha de extremo, eram quase sempre permeados por uma melancolia latente, um quê de dramático. Isto tudo demonstra o quanto se levavam a sério, não riam de si próprios, o que não lhes poupou das críticas. É o caso de Fernando Mendes, Márcio Greyck e José Augusto.

3) A velha-guarda ressuscitada: Esses também nunca tiveram nada a ver com Jovem Guarda, nem com Rock. São artistas que já estavam em atividade nos anos 40 e 50, mas que haviam sido abafados pela chegada da Bossa Nova, e depois riscados do mapa pela Jovem Guarda. São cantores cujas referências estão mais no samba, samba-canção, bolero, etc. Como eles eram a inspiração maior dos "neo-jovem-guardistas", que acabaram obtendo sucesso, estes cantores voltaram a ter espaço e puderam figurar lado a lado, confortavelmente, com aqueles novatos. Quem ainda estava vivo, ou meio-morto, pôde voltar às rádios, para ser colocado no mesmo bolo dos demais e ser classificado genericamente como "Brega". Exemplos: Vicente Celestino, Nelson Gonçalves, Núbia Lafayette.

4) Mamãe, eu quero ser Roberto Carlos: O estabelecimento de Roberto Carlos como "O Rei" acabou inspirando o nascimento de vários clones dele por todo o Brasil. O maior e mais conhecido deles é o Odair José. Chega a ser engraçado o esforço em soar da mesma maneira, as inflexões vocais, os arranjos, tudo. A diferença, o que os joga no limbo do Brega, é que eles escorregam nas letras e nos temas. Enquanto que o Roberto tentava manter a elegância, se segurava, os demais nem sabiam o que eram isso. Falavam de tudo, das maneiras menos elegantes que conseguissem. Outro exemplo de clone do Roberto é o Paulo Sérgio, só que este involuntário. Ele surgiu ainda no fim da Jovem Guarda, e para a sua sorte (ou azar), o seu timbre de voz era muito parecido com o do Rei. Acabou fazendo um relativo sucesso. Conta-se que, forçado pelas comparações, ele fez uma cirurgia para ver se mudava um pouco a voz, mas não conseguiu.

Ainda nos anos setenta, cantores que não estavam em nenhuma dessas categorias eram tachados erroneamente de Bregas. Era gente do Soul, como Cassiano, ou identificados com o samba, como o Luiz Airão, e outros como Tunai e Dalto, que faziam algo dentro do Pop. A partir dos anos 80, o universo do Brega se ampliou devido as fusões com outros estilos, como Calypso, Sertanejo, Lambada, etc. Apareceu todo o tipo de associação entre as vertentes e os ritmos surgidos posteriormente, o que torna quase impraticável qualquer tentativa de classificação. Como quase tudo que se torna popular, muita coisa ruim vem sendo feita, mas há de se reconhecer que muita coisa de qualidade foi produzida através do tempo, coisas que atravessaram décadas e ainda fazem parte da vida de muita gente. Tanto que, se há algo no Brasil que mereça o rótulo de MPB, isto é o Brega.

LUÍS VENCESLAU - 12:29 AM

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2.12.06

O fim da música

Lulu Santos é comumente tachado de polêmico por dar declarações um tanto originais demais. De fato, ele às vezes emenda uns desabafos sem propósito, é verborrágico mesmo, eu nunca vi ninguém daquela geração próximo a ele, fazendo parceria, o que fosse. Eu lembro de que há um tempo atrás eu vi uma entrevista com ele em que ele falava a respeito das funções da música no decurso do tempo e atualmente, e ele não entendia porque se escandalizavam tanto quando ele explicitava isso. Na hora eu nem prestei muita atenção, mas depois eu vi que quanto a isso ele está completamente certo.

Ele dizia que não conseguia ouvir música eletrônica a não ser quando fazia exercício, corria na esteira, etc. Ou seja, na concepção dele, musica eletrônica é mais algo pra preencher um silêncio, aplacar o tédio, marcar um ritmo. Não era uma música para ouvir, para ser saboreada, para provocar uma experiência estética ou passar alguma mensagem. Não que não existam vertentes na música eletrônica que explorem esses lados, como o trip-hop, por exemplo. Mas em sua maioria, a música eletrônica só faz sentido quando ouvida na rave, com uma cerveja na mão e a luz negra nos olhos. Um dj alcança o êxito não quando fica na posteridade ou muda os rumos da música, mas sim quando faz a galera "bombar" na pista, ali, naquele momento.

O fenômeno da "música com determinado fim" não é de hoje, lembremos da "música de elevador" que deu origem ao Lounge. E também a disco-music, a música das discotecas, que surgiu nos anos 70 e era alvo do desprezo de muita gente. Mas este conceito não é restrito à musica internacional, ele engloba também os brasileiríssimos axé, o funk carioca e o chamado "forró de plástico". Os mais puristas torcem o nariz, dizem que nada disso é música, chamam de lixo cultural, que é tudo descartável, etc. Realmente é tudo descartável. Nessas músicas não há grandes pretensões, aspirações artísticas, nem grandes sentimentos envolvidos, ou uma expressão forte. Não são músicas produzidas para serem ouvidas daqui a dez, vinte anos, no som de casa, ou num phone de ouvido. Precisa de uma estrutura, faz parte de todo um contexto de divertimento, uma festa, onde se dança, pula, bebe, fica, namora. É só a isto que ela se propõe: a diversão, aqui e agora. Se você consegue se divertir com esses tipos de música enumeradas, ótimo. Como eu não consigo, continuo com meus Beatles, ou quem sabe o Cartola, aqui no meu walkman.

LUÍS VENCESLAU - 3:30 AM

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27.10.06

O maestro da revolução

2006 não está dando moleza para a classe artística. Depois de Raul Cortez e Bussunda, chegou a vez de Rogério Duprat.

Como ele não é tão conhecido como os outros dois, vale a pena um resumo. Voltemos ao final da década de 60: Beatles, contestação, psicodelia, Verão do Amor, Maio de 68, ditadura, Festivais da Record. Nesse contexto, surge no Brasil um movimento que tinha ares da Antropofagia de 1922: o Tropicalismo. Muita gente contesta a idéia de "movimento" porquê parece ser algo pensado, programado. Na prática, o que aquele pessoal que se reuniu em São Paulo no fim dos anos 60 queria era o mesmo que os modernistas pretendiam, que era fundir tendências internacionais com traços íntimos de nossa cultura. A diferença é que o foco dos tropicalistas era a música.

Para essa música se concretizar e dali pudesse pautar muito do que veio depois, foi necessário a formação do tripé baianos-Mutantes-Rogério Duprat. Os baianos chegaram ao Sul com toda uma bagagem de informações regionais e sabendo chamar atenção como ninguém. Vindos do interior, eles haviam sido criados no meio de todas as tradições (Cordel, Coco de Roda, Luiz Gonzaga), sem passarem batidos a João Gilberto e ¿o novo cantar¿ por ele inaugurado. Aos paulistas dos Mutantes coube a informação vinda de fora. Bem mais tímidos, os garotos estavam plenamente antenados com a proposta anárquica e com o experimentalismo que os Beatles haviam trazido para o Rock. Não foi à toa que Gilberto Gil os chamou para serem a sua banda de apoio num daqueles festivais.

Para fechar a trinca, veio Rogério Duprat para colocar ordem na zona da garotada. Maestro de formação, não resistiu aos ímpetos daquela galera e acabou participando dos discos de quase todos, seja como arranjador ou produtor. E fez trabalhos históricos. Além de todas as orquestrações dos discos da primeira fase dos Mutantes, Duprat participou do "Tropicália ou Panis Et Circenses", o marco zero do Tropicalismo, e ainda produziu um disco que é tido como um dos mais raros do mundo "A Banda Tropicalista do Duprat". Para se ter uma idéia do ecletismo do homem, o disco que marcou o começo da maturidade de Chico Buarque foi produzido por ele. ¿Construção¿ sem as suas orquestrações não seria a mesma coisa.

LUÍS VENCESLAU - 2:49 AM

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13.8.06

(Olha aí, Bruno*, com uma semana de atraso, mas vale a intenção documental...)

Foi de doer os ouvidos... Foi ótimo!

Tudo bem que não tenha começado exatamente na hora, que a chuva quis estragar tudo, que houve alguns probleminhas técnicos... Mas quem tá ligando pra isso? Festival de rock é assim mesmo, quem achar ruim que fique em casa vendo DVD. O certo é que o Aumenta que É Rock Festival vai ficar marcado como um dos maiores eventos do gênero em terras pessoenses.

O festival foi organizado pelo pessoal do programa radiofônico homônimo, e já em sua primeira edição foi recheado de fatos notáveis: inauguração da casa, cobertura televisiva e presenças ilustres. A casa em questão é o Galpão 14, um imóvel localizado no centro histórico, ao lado do Hotel Globo, quase em frente à Casa Lúcio Lins. O lugar é bem bacana, composto por um espaço coberto (para música eletrônica) e um aberto com o palco ao fundo. Ambos funcionam muito bem, possuem uma acústica legal, além de ser ventilado, ótimo pros não fumantes com eu. O chato foi que eles tiveram que disponibilizar banheiros químicos, mas espero que façam sanitários de verdade por lá. A meninas agradecem.

MTVixeee... Que nada!
A cobertura televisiva ficou por conta da MTV. Os revoltadinhos hão de torcer o nariz, "ah, MTV está um lixo", "só passa o pop", etc, etc. Tudo bem, há um pouco de verdade em tudo isso. Só que não podemos nos esquecer de que a MTV é um veículo de comunicação de abrangência nacional, e é importante não só para a Paraíba, mas para o Nordeste, que o Brasil saiba que por estas bandas se faz bem mais que os "sons regionais". Derrubar estereótipos é sempre edificante. E mais: a MTV, obrigada pela sua razão de ser, sempre fez questão de difundir qualquer manifestação musical mais expressiva do país, a exemplo do Abril Pro Rock, Mada, dentre outros. Se eles vieram pra cá, é porque a coisa realmente mereceu atenção, o que nenhum veículo local pareceu ter percebido...

E quem tocou, colega?
Como o espaço é curto e ler na net é um saco, vou destacar algumas das apresentações mais relevantes, comentadas, badaladas, essas coisas. Quem abriu os trabalhos foi o quarteto pessoense Dalila No Caos, com seu stoner-rock-progressivo-vá-lá-o-que-isso-signifique. Rótulos à parte, o som vigoroso e pouco convencional da banda conseguiu prender a atenção da platéia, e se havia alguém de fora por ali já pôde se impressionar com uma das facetas mais inventivas da nova cena paraibana. E se impressionaria também com o que veio logo depois: o Cabeça Chata, do interior do estado. Tá, eles fazem um som com pitadas de regional, mas bem distante dos clichês que já nos cansam tanto. Livre das alfaias, por vezes pesada, a banda consegue incorporar outros ritmos sem que soe forçado, tudo recheado com letras sinceras e inteligentes. Foi uma das surpresas do festival.

O primeiro dia também contou com a pernambucana Volver, mostrando que Recife pode ir bem além do Mangue Beat, e com a sempre impagável Star 61. Quem encerrou a noite foi a baiana Retrofoguetes, cuja surf-music-virtuose-instrumental não me empolgou tanto, seguida pela Relespublica, esta sim, uma decepção. O vocalista é ótimo, carismático, são um dos novos queridinhos da MTV, mas o set-list tinha covers demais para uma banda com tão pouco tempo de carreira.

O segundo e melhor dia foi fechado com a trinca Forgotten Boys (SP), Walverdes (RS) e Autoramas (RJ). Não é de hoje que os Forgotten Boys são figurinhas fáceis na MTV. Alguém pode alegar que um dos integrantes já foi funcionário da emissora, mas se a banda não tivesse som para fazer valer esta facilidade, jamais teria se estabelecido como uma das mais conceituadas bandas do underground brasileiro. Tanto que ganharam o respeito de gente como o dinossaurico João Gordo e do público alternativo em geral. Quanto a mim, confesso que nunca fui muito com a cara deles, mas depois de vê-los pirando a garotada com aquele genuíno rock'n'roll cheio de "come on" e "baby", só tive que reconhecer que são uma puta banda.

Segura o queixo, Luís!
Depois veio os Walverdes, e aí a baba correu solta. Foi disparado o melhor show do festival. De cara, nota-se a "química" que rola entre este power-trio, sem contar a inteligência e a competência dos integrantes enquanto instrumentistas, e do próprio guitarrista cantando. Mas banda que é banda não é só técnica, é alma, e isso eles tem. Com riffs poderosos e letras ácidas, os Walverdes fogem da onda do revival oitentista e se apóiam no Grunge para nos trazerem um som pungente, raivoso e criativo. Aí não deu outra: incendiaram a platéia do começo ao fim da apresentação, com direito a cover de Stooges para sacramentar o êxito. Enfim, estão prontos para despontar. Finalizando tudo, subiram ao palco os Autoramas e foi uma ótima surpresa. A apresentação não teve tanto brilho porque eles trocaram de baixista, a outra era bem mais charmosa, mas a nova até que mandou bem nuns backing vocals louquinhos. O show foi bem divertido, e foi bom ver que eles são bem mais do que aquilo que aparece nos clipes.

Terminado o festival, uma coisa fica palpável: o que se produz na Paraíba não fica nada a dever ao que se produz em outras partes do Nordeste, julgando pelas bandas de fora que vieram. Ao ver em ação bandas como Projeto 50, Motherhell e Dawn Jones, temos a real impressão de que temos potencial para ir ainda mais longe.

O festival foi perfeito? Não, não foi. Ao optar por uma linha essencialmente "rock", no sentido mais genérico do termo, a organização acabou escalando bandas sem muita expressão nem experiência de palco, talvez por uma demo bem gravada, vai se saber. Ainda assim, o Aumenta Que é Rock festival foi uma das maiores e mais louváveis iniciativas jamais presenciada por este que vos tecla, porque dentre tantas coisas positivas que ele proporciona, um festival assim areja a cena local, serve de incentivo para quem é do ramo, e funciona como uma alternativa ao lixo sonoro que nos rodeia. Vida longa ao festival e que ele permaneça fixo no calendário cultural da cidade.

*Bruno é o único leitor desde blog. Pelo menos, o único que se manifesta "regularmente"...

LUÍS VENCESLAU - 3:44 PM

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7.7.06

Agora vai! Será?

É quase impossível pra quem é envolvido com música em João Pessoa esconder o sentimento de inveja ao citar as cenas baiana ou pernambucana, esta tão próxima a nós. O que eles têm que não temos? O que há de errado aqui para as coisas não andarem? (Ou andarem tão lentamente..?).

Independente de tudo que se possa enumerar, a palavra-chave se chama iniciativa. Iniciativa tanto para fundar bandas, selos, promover shows e fazer festivais. Por exemplo, o Abril Pro Rock de Recife e o Mada de Natal não nasceram do tamanho que são atualmente. Foi a custo de muito empenho e persistência dos organizadores que ambos se firmaram e hoje funcionam como uma espécie de vitrine do que se faz por aqui, atraindo os olhos dos grandes centros. E uma vez havendo esse empenho coletivo, algo que englobe promotores, meios, artistas e público, todos sintonizados numa mesma mentalidade, aí ninguém segura.

Tá, vivemos num lugar pobre, é verdade. Os recursos são escassos, o que implica numa certa mentalidade, em conveniências e concessões dos que podem promover algo. Há uma estrutura viciada e o medo de investir em algo novo é mais que natural. Mas se dependesse só disso, muita coisa sequer existiria. Os grandes movimentos vêm de baixo, e uma vez mostrado o seu poder, não resta a industria senão curvar-se a ele e patrociná-lo, tal como o Jazz, o Punk, e o Funk Carioca, mais recentemente.

Isto tudo foi só para falar que a partir de Julho alguns festivais vão tentar dar uma aquecida na cena pessoense. O primeiro, dia 15 agora, será organizado pelo selo Solaris, de Natal e vai contar com seis bandas, sendo três locais (Dalila no Caos, Scary Monsters e Gauche) e três de estados vizinhos (Automatics-RN, Montgomery-RN, Mellotrons-PE). Em agosto, nos dias 5 e 6, teremos o Festival Aumenta que É Rock, promovido pelo pessoal do programa homônimo, que vai ao ar pela 98 FM Correio, toda quinta e sexta, a partir das 22 horas. A lista completa das bandas selecionadas ainda não saiu, mas já estão confirmadas as presenças de Forgotten Boys, Relespública, Retrofoguetes e Walverdes.

Em Setembro, nos dias 15 e 16, haverá a segunda edição do Festival Mundo. Como foi na primeira, além da presença de bandas locais e de outros estados, o festival também contará com espaços para a música eletrônica, palestras e exposição de artes visuais. E para fechar a conta, teremos ainda no mês de julho, dia 22, a Tour MTV Banda Antes, integrada por Daniel Belleza (SP), Rock Rocket (PB), Faichecleres (SP), Vanguart (MT), Ecos Falsos (SP) e revelação paraibana Zeferina Bomba.

Pronto. Agora ninguém vai poder falar que "ah, aqui não acontece nada", "é parado demais", etc, etc. É o que nós sonhamos? Não, ainda não é. Mas o pessoal está trabalhando para organizar coisas legais e decentes nesta terra inóspita. Resta agora ao público (parte fundamental para o fortalecimento de uma cena) fazer a sua parte, comparecendo. Bora né?

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